MUNDO- PESTE-surto de coronavírus no país


    • SAÚDE
    • Do R7, com Reuters e EFE
Praças de pedágio em Wuhan tiveram bloqueios

Praças de pedágio em Wuhan tiveram bloqueios

EFE/EPA/STRINGER CHINA OUT

A China isolou nesta quinta-feira (23) três cidades que estão no epicentro de um surto de um novo coronavírus que matou 17 pessoas e infectou quase 600, enquanto autoridades de saúde de todo o mundo trabalham para evitar uma pandemia global.

Cerca de 18 milhões de pessoas não podem viajar de trens e aviões. Além disso, os transportes públicos locais também foram fechados por tempo indeterminado.

As autoridades de saúde temem que a taxa de transmissão se acelere, à medida que centenas de milhões de chineses viajam pelo país e ao o exterior durante o feriado de uma semana do Ano-Novo Lunar, que começa no sábado.

Acredita-se que a cepa de vírus anteriormente desconhecida tenha surgido no final do ano passado a partir de animais silvestres comercializados ilegalmente em um mercado de animais na cidade de Wuhan, no centro da China.

A maior parte dos transportes em Wuhan, cidade com 11 milhões de habitantes, foi suspensa na manhã de quinta-feira. As autoridades locais emitiram aviso informando que ninguém deve deixar a cidade sem motivos específicos.

Horas depois, a mídia estatal na vizinha Huanggang, uma cidade de cerca de 6 milhões de pessoas, disse que estava impondo um bloqueio semelhante.

Outro município perto de Wuhan, Ezhou, também anunciou que a estação de trem local será fechada até nova ordem. A cidade tem 1 milhão de habitantes.

As autoridades chinesas não deram novos detalhes sobre o número de infecções pelo vírus, mas foram relatados casos em Pequim, Xangai e Hong Kong e em outros países, incluindo os Estados Unidos, alimentando o temor de que já esteja se espalhando pelo mundo.

O governo da cidade de Wuhan informou que fecharia todas as redes de transporte urbano e suspenderia os voos a partir das 10h. No entanto, a mídia local disse que algumas companhias aéreas estavam operando após o prazo.

A mídia estatal divulgou imagens de um dos centros de transporte de Wuhan, a estação ferroviária de Hankou, quase deserta, com portões bloqueados ou trancados. O governo está pedindo aos cidadãos que não deixem a cidade.

A mídia estatal informou que as cabines de pedágio em Wuhan estavam fechando, o que efetivamente bloquearia as saídas das estradas. Guardas patrulhavam as principais rodovias, disse um morador à Reuters.

Enquanto a cidade entrava em isolamento, os moradores se aglomeravam nos hospitais para verificações e se apressavam em buscar suprimentos, limpando as prateleiras dos supermercados e fazendo fila para abastecer.

As autoridades de Huanggang ordenaram o fechamento de locais de entretenimento em recinto fechado, incluindo cinemas e cibercafés, e pediram aos cidadãos que não saíssem, a não ser em circunstâncias especiais, informou a mídia estatal.

Autoridades confirmaram 571 casos e 17 mortes até o final de quarta-feira, informou a Comissão Nacional de Saúde da China. Mais cedo, o órgão disse que outros 393 casos suspeitos foram relatados.

Dos oito casos conhecidos em todo o mundo, a Tailândia confirmou quatro, enquanto Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Estados Unidos registraram um cada.

    Coronavírus: Brasil corre risco de ser atingido por surto originado na China?

    Vírus foi identificado na China em dezembro e já chegou a mais sete países
    Vírus foi identificado na China em dezembro e já chegou a mais sete paísesGetty Images

    Casos do novo tipo de coronavírus identificado em dezembro na cidade de Wuhan, na China, já foram confirmados em mais sete países — Cingapura, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão, Tailândia, Taiwan e Vietnã.

    Apesar disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu não declarar este surto uma situação de emergência global, após uma reunião que se estendeu por dois dias.

    Ainda que o vírus tenha chegado a outros países, é cedo para tomar tal medida, disse a OMS, porque o número de casos notificados fora da China é pequeno — foram 12 de um total 584 até agora — e o vírus aparentemente não está se espalhando dentro destes países.

    “A transmissão parece estar limitada a familiares e profissionais que cuidaram dos pacientes. Não há evidências de transmissão entre pessoas fora da China, mas isso não significa que não vá acontecer”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS,

    “Não se enganem. Isso é uma situação de emergência na China. Ainda não se tornou uma emergência global de saúde. Mas pode vir a se tornar.”

    Os coronavírus são uma ampla família de vírus, mas sabe-se que apenas sete deles infectam humanos. Eles podem causar desde um resfriado comum até a morte. O novo vírus aparentemente está em algum lugar no meio do caminho entre esses dois extremos.

    No momento, nenhum caso do 2019-nCoV foi confirmado no Brasil — e, segundo o governo federal e epidemiologistas ouvidos pela BBC News Brasil, mesmo que isso ocorra, o risco é baixo de que haja um surto por aqui.

    Transmissões entre pessoas só foram detectadas na China

    Ministério da Saúde descartou cinco notificações de suspeitas informadas por Estados
    Ministério da Saúde descartou cinco notificações de suspeitas informadas por EstadosAFP

    O Ministério da Saúde anunciou na quinta-feira que as cinco possíveis suspeitas notificadas desde 18 de janeiro por quatro Estados (Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo) e pelo Distrito Federal foram descartadas.

    De acordo com a pasta, estes casos não atenderam aos critérios clínicos (febre e mais algum sintoma respiratório) e epidemiológicos (ter viajado para Wuhan ou ter entrado em contato com um paciente suspeito ou confirmado) estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a identificação de suspeitas.

    Até o momento, disse o secretário-substituto de Vigilância em Saúde, Júlio Croda, foram detectadas transmissões entre pessoas apenas em Wuhan, por isso, ter passado pela cidade é considerado um aspecto crítico para identificar uma suspeita.

    Na quarta-feira, autoridades chinesas pediram que cidadãos deixem de entrar e sair de Wuhan e que a população local evite aglomerações. Tanto essa cidade quanto a vizinha Huanggang estão sofrendo uma espécie de quarentena, com a suspensão do transporte público.

     

    OMS disse que ainda é cedo para declarar surto como emergência global
    OMS disse que ainda é cedo para declarar surto como emergência globalReuters

    Croda disse que surtos como este “geram muita confusão na população”, mas ressaltou ser importante seguir rigidamente estes critérios ao avaliar cada caso.

    “Essas definições são bem restritas, mas podem mudar no futuro, porque são dinâmicas e dependem do contexto epidemiológico. Se surgirem evidências de mais locais onde houve uma transmissão entre pessoas, a definição vai mudar. Faremos atualizações diárias sobre isso”, afirmou Croda.

    Governo não fará triagem nos aeroportos e portos

    O ministério também anunciou ter instalado um Centro de Operações de Emergência para tratar do surto do novo coronavírus, que operará no primeiro dos três níveis de gravidade possíveis.

    Esse grupo fará reuniões diárias para monitorar o 2019-nCoV e trabalhar junto aos serviços de emergência do país para que eles estejam preparados se a situação se agravar.

    A pasta disse ainda que, por enquanto, não será feita triagem de passageiros para identificar pessoas que possam ter sintomas do vírus, como passaram a fazer países como Estados Unidos, Reino Unido e Indonésia.

    “A própria Opas (Organização Panamericana de Saúde) disse em um comunicado que não há evidências científicas de que fazer esse tipo de triagem seja uma medida de controle efetiva, porque o paciente pode chegar sem sintomas”, afirmou Croda.

     

    A cidade de Wuhan, epicentro do surto, foi colocada em uma espécie de quarentena
    A cidade de Wuhan, epicentro do surto, foi colocada em uma espécie de quarentenaBBC NEWS BRASIL

    O 2019-nCoV tem um período de incubação — o tempo entre a exposição ao vírus e o surgimento dos primeiros sintomas — estimado em 14 dias. Ele causa febre, tosse, falta de ar e dificuldade em respirar.

    Em casos mais graves, pode evoluir para pneumonia e síndrome respiratória aguda grave ou causar insuficiência renal.

    Novo vírus é similar ao Sars e Mers

    O Ministério da Saúde explicou que o novo coronavírus é similar a outros dois identificados nas últimas décadas.

    Um deles foi responsável por causar a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês), e matou 774 das 8.098 infectadas em uma epidemia que começou na China em 2002.

    Outro esteve por trás da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, na sigla em inglês), que matou 858 dos 2.494 pacientes identificados com a infecção desde 2012 nesta região do mundo.

    Até o momento, entre os mais de 800 casos notificados do 2019-nCoV, houve 26 mortes — todas na China.

    “Se o comportamento do novo coronavírus for igual ao do Sars e do Mers e mantiver uma transmissão limitada localmente e entre familiares e profissionais de saúde, ele deve ficar restrito a algumas poucas cidades”, disse Corda.

    “Não podemos gerar um pânico desnecessário na população. Se houver um risco de transmissão por contato eventual entre pessoas, aí sim existirá o risco de uma epidemia global. Mas não existe neste momento nenhum risco disso.”

    ‘Risco baixo’ de haver surto no Brasil

    O infectologista Benedito Antonio Lopes da Fonseca, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, avalia que não há motivos para a população brasileira ter receios no momento sobre o surto do 2019-nCoV ao Brasil.

    “Com o Sars, houve uma grande epidemia na China e pequenos surtos em outros países, mas acabou ali. Uma grande vantagem da globalização é que as medidas de contenção de epidemias são colocadas em prática muito mais rápido do que no passado”, afirma Fonseca.

    “É preciso avaliar a movimentação de pessoas entre esta região da China e o Brasil. Se for baixo, acredito que o risco é mínimo, quase inexistente, de o vírus chegar ao país.”

     

    Por enquanto, transmissão é restrita entre pacientes e seus familiares e profissionais de saúde
    Por enquanto, transmissão é restrita entre pacientes e seus familiares e profissionais de saúdeBBC NEWS BRASIL

    O infectologista Marcos Boulos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explica que o novo coronavírus é preocupante por ser desconhecido, mas que sua disseminação, na China e internacionalmente, é aparentemente mais “suave” do que as do Sars e do Mers.

    “Pelo tempo desde que a doença começou até agora, o número de casos notificados, de casos graves e de mortes ainda é baixo, especialmente levando em conta o tamanho da população chinesa”, afirma Boulos.

    O médico afirma que a possibilidade do novo coronavírus chegar ao Brasil existe, mas é “baixa, pouco provável”. “Isso não descarta a necessidade de ficarmos alerta. Mas o Brasil tem outras doenças mais alarmantes com que devemos nos preocupar.”

    Ambos os infectologistas concordam que, diante desta situação, não é necessário fazer a triagem de passageiros em portos e aeroportos do país.

    Mas recomendam que sejam tomadas algumas medidas nestes locais para orientar os passageiros, por meio de cartazes nos terminais e avisos sonoros nos aviões, para que busquem um posto de saúde caso tenham sintomas como febre e problemas respiratórios.

    “Se virar uma emergência global, vai ser necessário ter um controle muito mais rígido das fronteiras”, alerta Fonseca.

    ‘Ser um nutricionista gordo não é atestado de incompetência’

    Erick Cuzziol passou a adotar o nome "Nutricionista Gordo" após receber diversas críticas em razão de seu peso
    Erick Cuzziol passou a adotar o nome “Nutricionista Gordo” após receber diversas críticas em razão de seu pesoBBC NEWS BRASIL

    Desde pequeno, Erick Cuzziol, de 37 anos, enfrentou uma intensa luta contra a balança. Ao longo da vida, recorreu a diversas dietas restritivas que o fizeram mal. Em razão da sua própria história, decidiu cursar nutrição. Na universidade, descobriu sobre o preconceito enfrentado por pessoas gordas que são nutricionistas.

    No ano passado, decidiu adotar, nas redes sociais, o nome “Nutricionista gordo”. Em conversa com a BBC News Brasil, ele conta sobre a sua vida e os motivos que o levaram a passar a falar abertamente sobre o modo como o seu peso é encarado na profissão.

    Abaixo, o relato de Cuzziol sobre a sua história:

    “Comecei a engordar aos sete anos. Na adolescência, cheguei aos 114 quilos. Fiz dietas malucas e tomei medicação, que me prejudicaram ainda mais. Quando parava com os remédios e voltava a comer sem restrições, engordava ainda mais, porque tinha compulsão alimentar. Isso me deixava muito triste. Sofri muito bullying na infância e adolescência nas escolas em que estudei, em São Paulo (SP) — onde nasci e moro até hoje.

    Fiz dietas que me fizeram muito mal. Muitas vezes, parecia que eu iria desmaiar por ficar muito tempo sem comer. Na vida adulta, desisti das dietas. Decidi cursar nutrição, até mesmo para ter respostas sobre essa minha eterna luta contra o meu peso. O que eu não imaginava, na época, era que muitas pessoas que faziam nutrição vendiam a própria imagem como se fosse qualidade do trabalho deles. Por isso, muitos acreditam que é necessário que o profissional seja magro. É um padrão social, que muitos creem ser fundamental para a profissão.

    Certa vez, um aluno do curso pediu para a professora comentar sobre o quanto era um absurdo que um nutricionista fosse gordo. Mas ela deixou muito claro que o peso não é algo que interfere em nossa capacidade e ainda disse que uma das melhores nutricionistas que conhece é gorda e produz estudos indispensáveis para a nutrição.

    Fiz o meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre transtornos alimentares, pois sempre considerei um assunto muito importante e pouco debatido na época, em 2008. Era um tema muito mais voltado para a psicologia do que para a nutrição, mas sempre acreditei que deveria incluir as duas áreas. Não é possível trabalhar a alimentação unicamente, muitas vezes é necessário um trabalho interdisciplinar. Foi justamente enquanto estudava sobre os transtornos que descobri a minha compulsão alimentar.

    Quando me formei e fui procurar emprego, descobri outra realidade: a desvalorização e desrespeito ao nutricionista, tanto em questões trabalhistas como em oportunidade e mercado de trabalho. Eu ainda tinha outro problema: o meu peso. Na época, eu estava com 140 quilos.

     

    BBC NEWS BRASIL

    Preconceito contra profissionais gordos

     

    Diferentes pesquisas apontam que profissionais de saúde que estão acima do peso podem ter menos credibilidade para alguns pacientes. O assunto é debatido há anos. Um estudo de 2013, intitulado O efeito do peso corporal dos médicos nas atitudes dos pacientes: implicações para a seleção do médico, confiança e adesão ao aconselhamento médico, do International Journal of Obesity, do periódico Nature, abordou a temática. A pesquisa concluiu que prestadores de serviço com sobrepeso ou obesos podem ser alvos de maiores desconfianças e os pacientes atendidos por eles podem se sentir menos inclinados a seguir os conselhos desses profissionais.

    Para Cuzziol, os nutricionistas gordos estão entre os profissionais que enfrentam mais dificuldades para conquistar a confiança dos pacientes.

    Em nota à BBC News Brasil, o Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) afirma que a discussão referente ao peso de nutricionistas não faz parte das orientações da entidade e o assunto não é debatido pelos membros da instituição. “Não existe posicionamento sobre isso”, informa o conselho, que disse não ter um representante para conversar com a reportagem sobre o assunto.

    “A missão institucional do conselho é contribuir para a garantia do direito humano à alimentação adequada, fiscalizando, normatizando e disciplinando o exercício profissional do nutricionista e do técnico em Nutrição e Dietética (TND) para uma prática pautada na ética e comprometida com a segurança alimentar e nutricional, em benefício da sociedade”, diz trecho de nota encaminhada pelo CFN à reportagem.

     

    BBC NEWS BRASIL

    Depressão profunda e bariátrica

     

    Depois de formado, tive dificuldades para encontrar emprego. Entrei em depressão profunda. A minha família ficou muito preocupada com a minha situação. Engordei cada vez mais e cheguei aos 192 quilos. Cheguei a tentar o suicídio. Decidi fazer a bariátrica.

     

    Cuzziol começou a engordar aos sete anos e passou a sofrer bullying na escola
    Cuzziol começou a engordar aos sete anos e passou a sofrer bullying na escolaBBC NEWS BRASIL

    Sou favorável a essa cirurgia, mas acredito que ela precisa ser feita com mais cautela, em casos de emergência, quando realmente não existem alternativas. Até porque é um procedimento com o qual a pessoa vai ter de lidar com uma série de situações, ao longo da vida, que não possuía anteriormente. No meu caso, passei a ter problemas para absorver o cálcio. Por isso, até hoje tomo suplementos específicos.

    Emagreci 70 quilos depois da bariátrica, que fiz em 2010. As pessoas enxergam a cirurgia como uma solução para todos os problemas, o que não é verdade. Depois do procedimento, mantive uma boa alimentação e suplementação adequada, mas não me tornei uma pessoa magra, principalmente porque estava desempregado e sem condições para fazer acompanhamento com um profissional para me orientar nas atividades físicas. Hoje, se analisarmos pelo Índice de Massa Corporal (IMC), sou uma pessoa obesa.

    Levo um estilo de vida onde tenho como me movimentar e cuido da minha alimentação. Mas existe uma questão de metabolismo, que me prejudica e me impede de emagrecer. Não posso reduzir ainda mais a minha alimentação, principalmente depois da bariátrica, porque posso passar por adoecimento por desnutrição. O meu peso é preocupante? Sim. Mas posso fazer duas coisas: conviver com isso e manter a qualidade de vida que tenho ou desregular essa qualidade buscando reduzir cada vez mais o peso. É importante dizer que não tenho colesterol, não tenho diabetes, não tenho nada.

    Uma das coisas que mais me incomodam é que a obesidade ainda é pregada como forma de comportamento. Parece que as pessoas são gordas porque não têm vergonha na cara, não se esforçam e não se dedicam a emagrecer. Mas para uma pessoa gorda emagrecer, é preciso gastar. A sociedade brasileira ainda não entendeu, mas o mercado do emagrecimento é muito caro.

    A obesidade é uma doença, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Mas defini-la como doença dá uma margem muito grande para quem quer se aproveitar disso para tentar vender algo. O obeso é uma pessoa que está em uma condição que precisa de cuidado grande com alimentação e outros fatores, mas não recebe o mesmo apoio, por exemplo, que uma pessoa com diabetes.

    Se partirmos do ponto de que a obesidade é uma doença, então qualquer pessoa obesa deveria ter acesso a tratamento gratuito, com uma equipe interdisciplinar, senão corre o risco de cair em inúmeros tratamentos enganosos.

    Mas se a obesidade é uma doença, por que ela ainda é tão desrespeitada na sociedade? Talvez, o melhor seja considerarmos a obesidade como uma condição, em vez de tratá-la como doença, até mesmo porque não há tratamento adequado na saúde pública.

    Um problema é que, muitas vezes, os médicos associam qualquer problema de saúde de uma pessoa obesa ao peso dela. É preciso investigar a origem daquele problema. Se estiver relacionado à obesidade, é fundamental fazer o tratamento necessário e o profissional de saúde precisa entender que o sobrepeso não é algo que depende só daquela pessoa.

    A carreira na nutrição

    Depois da bariátrica, continuei a busca por um emprego. Em algumas vagas, as pessoas me olhavam estranhamente. Chegaram a me questionar: como você vai convencer as pessoas sendo nutricionista e gordo? Isso me deixava arrasado. Os empregos que consegui foram aqueles que ninguém queria, como em um presídio e em uma rede de hipermercados que passava por uma onda de demissões para conter gastos.

     

    Cuzziol afirma que já percebeu que pacientes ficaram incomodados em razão do peso dele. Porém, segundo ele, há aqueles que o procuram justamente por ser um profissional gordo
    Cuzziol afirma que já percebeu que pacientes ficaram incomodados em razão do peso dele. Porém, segundo ele, há aqueles que o procuram justamente por ser um profissional gordoArquivo pessoal

    Entre os conhecidos, minha profissão foi, muitas vezes, motivo de gargalhadas: quando eu contava que era nutricionista, algumas pessoas riam, como se fosse uma piada, por eu ser gordo.

    Quando a gente pesquisa sobre a obesidade, descobre que há diversos fatores para isso, que nunca param de crescer. As pessoas podem continuar obesas, em muitos casos, mesmo quando mudam a alimentação. A gente tem como manter o controle do peso, mas infelizmente não há 100% de solução para resolver o sobrepeso ou obesidade.

    Entre os fatores para a obesidade há itens como o metabolismo, genética ou outras questões relacionadas a hábitos de vida dessa pessoa. O crescimento do número de pessoas obesas é uma resposta ao estilo de vida atual. As pessoas têm buscado alimentos prontos, por conta da correria do dia a dia. Isso não é o correto. Mas as pessoas precisam entender que a melhor saída para a obesidade é muito mais do que dizer que basta apenas a pessoa ‘tomar vergonha na cara para emagrecer’.

     

    BBC NEWS BRASIL

    A obesidade no Brasil

     

    De acordo com a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2018, divulgada pelo Ministério da Saúde em julho passado, os números de obesos no Brasil cresceram 67,8% nos últimos treze anos — saltou de 11,8% em 2006 para 19,8% em 2018, dado mais recente.

    Os dados da pesquisa apontam crescimento em um número que estava estabilizado nos últimos anos. Desde 2015, a prevalência da obesidade na população brasileira havia se mantido em 18,9%.

    O levantamento apontou que o crescimento da obesidade foi maior entre os adultos de 25 a 34 anos — 84,2% — e de 35 a 44 anos — 81,1%.

     

    BBC NEWS BRASIL

    Nutricionista gordo

     

    Eu encaro que uma dieta saudável é uma que possua alimentos simples, como arroz, feijão, pão e verduras, sem que a pessoa deixe de comer corretamente. Hoje em dia, a cada hora surge um modismo diferente de dietas. As pessoas cada vez menos procuram aquilo que é natural. Em meu consultório, muitos pacientes relatam que buscam comidas em aplicativos de alimentação no almoço ou no jantar.

    No fim de 2017, comecei a atender em clínicas, pois antes não atuava em consultórios. Decidi fazer isso quando começou a vir à tona a discussão sobre gordofobia, porque me senti mais confiante para trabalhar diretamente com os pacientes.

     

    Nutricionista afirma que seu peso não pode ser considerado "atestado de incompetência"
    Nutricionista afirma que seu peso não pode ser considerado “atestado de incompetência”Arquivo pessoal

    Acho a discussão sobre a gordofobia muito importante. Mas o movimento que discute o tema tem alguns pontos que não acho tão saudáveis. Alguns debates costumam ser agressivos e cheios de ‘verdades’. Para um assunto que está começando a ser discutido, não é possível ser cheio de ‘verdades’. É preciso haver descobertas e todo mundo se ajudando.

    Sou a favor do emagrecimento, desde que aconteça de maneira saudável. Mas o fato de emagrecer tem que ser secundário a outros fatores. A pessoa precisa começar a aprender a escolher os alimentos. O foco é prezar por uma melhor alimentação, que não seja uma dieta restritiva ou que proíba alimentos simples como pães. O emagrecimento pode ser consequência.

    Quando um paciente me procura pedindo para emagrecer, eu não prometo isso. Prometo melhora nutricional, que pode culminar em um emagrecimento. Mas se a pessoa focar no peso, teremos problemas, porque ela pode não focar na importância do alimento.

    Já perdi pacientes por causa do meu peso. O problema é que eles nunca deixam claro que estão desconfortáveis por serem atendidos por um nutricionista gordo. Se disserem, ok, eu devolvo o dinheiro da consulta sem problema algum (Cuzziol atende em uma clínica particular em São Caetano do Sul, em São Paulo).

    Há pouco mais de um ano, depois dos inúmeros comentários sobre o meu peso, decidi usar isso na minha profissão. Nas redes sociais, me tornei o ‘Nutricionista gordo’. Estava cansado de explicar que ser nutricionista e ser gordo não é um crime. Muitos ironizam esse fato e acham que é um atestado de incompetência.

    Quando mudei meu nome nas redes, muitos pacientes passaram a me procurar justamente por causa do modo como me defino, por se sentirem mais à vontade. Me impressiona que isso atinge bastante gente, até mesmo alunos de nutrição e medicina, principalmente aqueles que também são gordos. Uma médica gorda me procurou e me contou que sofre gordofobia no serviço. Ela me perguntou como eu lido com isso, porque é algo que a incomoda muito.

    Pode ser muito difícil para algumas pessoas mudarem seus conceitos sobre o fato de um nutricionista ser gordo. Mas é importante entender que isso não é um atestado de incompetência. O importante é compreendermos que uma alimentação saudável não se resume à busca pelo emagrecimento. Além disso, acho fundamental que as pessoas entendam que a obesidade precisa ser vista com mais respeito.”

    RJ: contaminação de água vai além de substância produzida por algas

    Aspecto da água deixa fluminenses receosos
    Aspecto da água deixa fluminenses receososSaulo Angelo/Futura Press/Estadão Conteúdo

    Desde o começo deste ano, a população do Rio de Janeiro reclama do gosto e do cheiro de terra da água fornecida pela rede de abastecimento.

    Essas alterações são causadas pela geosmina, substância produzida por algas, que precisam de condições específicas para se proliferar, uma delas são nutrientes encontrados no esgoto doméstico.

    “A presença de luz no ambiente e de nutrientes na água, mais especificamente de nitrogênio e fósforo favorecem a proliferação dessas algas. E a grande fonte desses nutrientes é o esgoto doméstico”, explica a engenheira Iene Figueiredo, especialista em saneamento ambiental e professora da Escola Politécnica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    “A geosmina não oferece risco, tanto que não tem seu nível controlado pelo Ministério da Saúde. Reclamações de diarreia e outras reações podem ter outros fatores associados”, afirma.

    Ela confirma que a água pode ser consumida, como já informou a Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro).

    “Hoje ela pode ser entendida como própria para consumo, apesar de não atender ao padrão de potabilidade”, destaca. De acordo com ela, a água fornecida pela companhia não se enquadra no conceito de potável pois não atende aos requisitos de odor e sabor, que estão alterados.

    “Embora não haja risco para a saúde, as pessoas não querem beber uma água com gosto e cheiro de terra”, pondera.

    Ainda de acordo com Iene, a geosmina não deixa a água turva. A cor de barro relatada por alguns moradores pode ser explicada por outros aspectos: o péssimo estado de conservação das instalações prediais e as manobras realizadas para aumentar a pressão da água nos canos que levam a água para as residências.

    “Durante a madrugada, a pressão na rede de água aumenta muito, enquanto durante o dia ela dimunui e não chega à caixa d’água. Então são feitas manobras para empurrar a água até o usuário, e a sujeira presente na tubulação também pode ser empurrada nesse processo”, explica.

    A professora enfatiza, porém, que o esgoto doméstico que polui a nascente dos rios não contamina a água que chega na torneira dos consumidores.

    “A ETA Guandu [estação de tratamento de água do rio] funciona desde os anos 50 e oferece água com qualidade para a população, mas o processo de diluição de resíduos está difícil, os rios estão muito contaminados”.

    O grande problema a ser resolvido, na opinião dela é a falta de controle do lançamento de esgotos em manaciais, que veio à tona com essa crise.

    “Ou colocam saneamento nos municípios, ou a gente vai conviver com situações com essa”, alerta.

    Qual risco a ranitidina contaminada oferece aos consumidores?

    Medley foi um dos laboratórios que fez recall
    Medley foi um dos laboratórios que fez recallReprodução

    A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou na quarta-feira (22) já ter ocorrido o recolhimento voluntário de 225 lotes de medicamentos à base de cloridrato de ranitidina, usados no tratamento de úlcera gástrica, pelo risco de contaminação por uma substância que pode causar câncer, chamada nitrosamina.

    A Medley, unidade de negócios de genéricos da Sanofi, explicou em nota que o “recolhimento voluntário e preventivo” aconteceu pelo risco de “contaminação com uma impureza de nitrosamina chamada N-nitrosodimetilamina (NDMA), que é classificada como possível substância causadora de câncer em humanos”.

    Em dezembro de 2019, a Aché Laboratórios Farmacêuticos também protocolou o recolhimento voluntário e preventivo dos produtos Label comprimidos, Label xarope e seus respectivos genéricos de cloridrato de ranitidina. Veja abaixo a lista completa de medicamentos recolhidos pelas duas empresas.

    A medida foi tomada após a Anvisa recomendar que as empresas façam um controle mais rigosoro de nitrosaminas por precaução. De acordo com o órgão, 24 empresas farmacêuticas possuem medicamentos registrados com o princípio ativo cloridrato de ranitidina.

    De acordo com o toxicologista Anthony Wong, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP “estudos indicam que em humanos elas [nitrosaminas] podem provocar lesões no fígado, nos rins no coração e no cérebro, e algumas delas são cancerígenas”.

    Como explicar a presença dessas substâncias?

    Ele explica que a presença de nitrosamina no medicamento para úlcera pode ter acontecido por contaminação externa ou formação da substância durante o período em que o remédio ficou estocado.

    “A contaminação pode ter ocorrido no processo de fabricação, que envolve vários componentes, ou por transformação de algum ingrediente que antes não tinha nitrosamina e passou a ter porque aconteceu uma reação química”, afirma.

    O especialista acrescenta que essas situações não acontecem durante a produção de medicamentos originais, restringem-se aos genéricos.

    Segundo ele, nitrosaminas também foram encontradas em amostras genéricas de remédios que diminuem o colesterol. Neste caso, no entanto, não houve recolhimento porque a quantidade era muito baixa.

    “A concentração depende também da frequência com que a pessoa toma o remédio”, observa.

    A Anvisa ainda esclarece que as nitrosaminas estão presentes “em alguns alimentos e suprimentos de água potável”, entretanto, “são consideradas impurezas” quando formadas na fabricação de ingredientes ativos dos medicamentos.

    Wong exemplifica que durante a queima da carne em um churrasco também ocorre a formação da substância.

    Ele ressalta que o alerta e recolhimento dos remédios foram feitos por prevenção. A Anvisa classifica como “inaceitável” que a presença de nitrosamina ultrapasse os níveis recomendados.

    “Risco associado é muito pequeno”, afirma a Anvisa

    O conselho para quem usa ranitidina é manter o tratamento e procurar orientação do médico. O órgão diz que o “risco associado é muito pequeno, mesmo com a exposição por vários anos seguidos, utilizando-se da dose máxima todos os dias”.

    “Até agora não há certeza sobre casos concretos de pessoas que tiveram câncer por tomar rinitidina”, destaca. “Foi uma medida preventiva. É como andar na faixa de pedestre porque o risco de ser atropelado é menor”, compara Wong.

    Em sua página, a Anvisa ainda informou que “tem realizado ações para conter a presença de nitrosaminas em medicamentos desde julho de 2018. As medidas estão alinhadas com agências do mundo inteiro, tais como a Agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos da América (Food and Drug Administration)”.

    Em setembro de 2019, a importação de ranitidina fabricada por uma empresa indiana foi suspensa pelos mesmos motivos.

    Anvisa/Arte R7

     

    Sobe para 25 número de mortos por coronavírus na China

    25 pessoas morreram infectadas
    25 pessoas morreram infectadasReuters

    Um novo coronavírus já matou 25 pessoas na China e infectou mais de 800, informou o governo China nesta sexta-feira (24). A OMS (Organização Mundial da Saúde) chegou  declarar emergência, mas parou de declarar a epidemia de preocupação internacional.

    A Comissão Nacional de Saúde da China disse que 830 casos foram confirmados até agora e 25 pessoas morreram na quinta-feira. A maioria dos casos está na cidade chinesa de Wuhan, onde se acredita que o vírus tenha se originado no final do ano passado.

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    Casos não fatais foram encontrados em pelo menos outros sete países.

    As autoridades de saúde temem que a taxa de transmissão acelere, já que centenas de milhões de chineses viajam para casa e para o exterior durante as férias de uma semana do Ano Novo Lunar, que começa no sábado.

    No entanto, era “um pouco cedo” para considerar o surto uma “Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional”, disse Didier Houssin, presidente do painel do Comitê de Emergência da OMS, depois que o órgão se reuniu em Genebra. Essa designação exigiria que os países intensificassem a resposta internacional.

    “É uma emergência apenas na China”, disse o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Ainda não se tornou uma emergência de saúde global, mas pode se tornar”, afirmou.

    Lutando para conter o surto, o governo local de Wuhan, uma cidade de 11 milhões de pessoas na província de Hubei, suspendeu a maior parte do transporte na quinta-feira, incluindo voos de saída, e as pessoas foram instruídas a não sair. Horas depois, a vizinha Huanggang, uma cidade de cerca de 7 milhões de pessoas, anunciou medidas semelhantes.

    “O bloqueio de 11 milhões de pessoas é sem precedentes na história da saúde pública”, disse Gauden Galea, representante da OMS em Pequim. A organização afirmou, no entanto, que ainda não estava recomendando restrições mais amplas a viagens ou comércio.

    Acredita-se que a cepa de vírus anteriormente desconhecida tenha emergido de animais silvestres comercializados ilegalmente em um mercado de animais em Wuhan.

    Ele criou alarme porque há várias incógnitas em torno dele. É muito cedo para saber o quão perigoso é e com que facilidade se espalha entre as pessoas.

    Não existe vacina para o vírus, que pode se espalhar através da transmissão respiratória. Os sintomas incluem febre, dificuldade em respirar e tosse.



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