FOTOS IMAGENS-Áudio mostra dono da Borges Landeiro dizendo ter R$ 600 milhões em fazendas enquanto empresa pede recuperação judicial, diz MP


Por Honório Jacometto e Rafael Oliveira, TV Anhanguera e G1 GO

 


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Construtora é acusada de ocultar R$ 600 milhões em patrimônio para dar calote nos clientes

Construtora é acusada de ocultar R$ 600 milhões em patrimônio para dar calote nos clientes

O dono da construtora Borges Landeiro, Dejair Borges, aparece em uma gravação com diretores do alto escalão de sua empresa, durante uma reunião, confessando ter R$ 600 milhões em fazendas, segundo o Ministério Público de Goiás. O áudio interceptado por um funcionário foi entregue aos promotores para denunciar a intenção da empresa de não pagar dívidas com credores depois de ingressar na Justiça de Goiás com um pedido de recuperação judicial.

“Essas fazendas que nós temos estão valendo R$ 100 mil por alqueire. Nós temos R$ 600 milhões em fazendas”, diz Dejair Borges na gravação.

Em outubro, 12 pessoas foram presas, incluindo Dejair Borges, por suspeita de fraudar o processo de recuperação judicial, mas já estão em liberdade. O advogado do empresário, Roberto Serra, afirma que as prisões foram arbitrárias e que não houve golpe.

“Haveremos no momento oportuno, até porque até este momento não foi oferecida sequer a ação penal, apresentar todos os argumentos e fundamentos necessários pra mostrar que essa acusação é totalmente improcedente”, alega Serra.

Em 2017, a construtora disse que estava à beira da falência, parou de entregar os apartamentos e pediu recuperação judicial na Justiça de Goiás, um benefício previsto em lei para que as empresas possam reorganizar as finanças, negociar dívidas e evitar a falência. À época, a Borges Landeiro comunicou à Justiça que devia mais de R$ 250 milhões.

Mas um funcionário da empresa procurou o Ministério Público para denunciar o esquema: a empresa tinha dinheiro para pagar as dívidas e não pagou. Desde então, o colaborador passou a gravar as conversas da diretoria.

Dejair José Borges, dono da Borges Landeiro — Foto: Cristiano Borges/O PopularDejair José Borges, dono da Borges Landeiro — Foto: Cristiano Borges/O Popular

Dejair José Borges, dono da Borges Landeiro — Foto: Cristiano Borges/O Popular

Prejuízo

O aposentado Antônio Francisco de Paula pagou R$ 200 mil por um apartamento da construtora, dinheiro que guardou por muitos anos, mas não recebeu o imóvel nem teve o dinheiro devolvido.

“Era um dinheiro que acabou com a minha vida porque eu só tinha ele. O meu sonho era ter o apartamento”, lamenta o aposentado.

O dinheiro de Francisco de Paula e de outros investidores, segundo as investigações do Ministério Público, passou para o nome de pessoas consideradas “laranjas” do esquema, em várias transferências feitas pela construtora.

O promotor do MP-GO, Juan Borges de Abreu, revela que a empresa celebrou vários negócios jurídicos no período de um ano para desviar esse patrimônio.

Nas redes sociais, Dejair Borges, presidente da construtora, aparecia em passeios de jatinho e de barco.

Quando o aposentado teve conhecimento das movimentações da empresa que construiria seu apartamento, disparou: “você passando dificuldade e o cara desfrutando com dinheiro seu”.

Operação do Ministério Público cumpriu busca e apreensão na sede da empresa, em Goiânia, Goiás — Foto: Reprodução/TV AnhangueraOperação do Ministério Público cumpriu busca e apreensão na sede da empresa, em Goiânia, Goiás — Foto: Reprodução/TV Anhanguera

Operação do Ministério Público cumpriu busca e apreensão na sede da empresa, em Goiânia, Goiás — Foto: Reprodução/TV Anhanguera

Esquema

O Ministério Público diz que a Borges Landeiro não lucrou apenas com as dívidas não pagas e imóveis não entregues: ganhou dinheiro também usando um suposto “kit falência” – que são estratégias para enganar a Justiça e os clientes.

Antes da recuperação judicial ser aprovada, uma empresa foi aberta e movimentou R$ 60 milhões em 2018. No papel, os sócios eram o empresário Vicente Conte Neto, o advogado Bruno Burili Santos e um primo de Dejair Borges.

Um homem identificado como Silfarnei confessou receber R$ 5 mil para colocar seu nome em uma empresa aberta em São Paulo, que seria de fachada, segundo o Ministério Público.

“[Dejair] pediu se eu podia ajudar ele com os meus dados. Ele abriu uma firma lá em São Paulo e colocou eu de sócio. À época, me passou R$ 5 mil”, revelou o homem.

Outro áudio mostra Dejair Borges conversando com o funcionário que delatou o esquema à Justiça.

“Quem tem o controle da companhia? Quem tem o controle, em realidade, sou eu?”, questiona. “É o senhor”, responde o delator.

As investigações mostram que a empresa de fachada foi atrás de pessoas e firmas que tinham dinheiro a receber da construtora, e propôs pagar parte da dívida – mas uma parte pequena, diz o advogado de 85 clientes da Borges Landeiro, Wilson Rascovitz.

“Aproveitaram do desespero do consumidor, ou seja, aquele que tinha o seu dinheiro, a poupança que ele fez, um investimento de R$ 30 mil, por exemplo, vai receber R$ 15 mil”, explica Rascovitz.

Segundo o MP-GO, os movimentos da construtora fazem parte da estratégia do “kit falência”, que ao pagar parte das dívidas, a empresa de fachada conseguiu procurações e teve direito a muitos votos na assembleia de credores – exigência judicial para aprovar o plano de recuperação judicial que estabelece o cronograma de pagamentos aos credores.

Em março deste ano, o plano de recuperação da Borges Landeiro propôs pagar apenas 30% das dívidas, num prazo de 26 anos, com início do pagamento em 2023.

Segundo a promotoria, como o dono da empresa de fachada era, na verdade, também o dono da construtora, a proposta, mesmo pouco vantajosa para os credores, acabou sendo aceita.

O resultado da assembleia não poderia ser diferente, segundo o promotor Juan Borges. “Não tinha como ter um outro resultado. O consumidor infelizmente nessa assembleia de credores fez papel de bobo.”

Segundo o Ministério Público, com o “kit falência”, a Borges Landeiro conseguiu reduzir as dívidas, comprar os apartamentos de volta a preços baixos, e colocar tudo à venda de novo.

“A construtora vendia duas vezes o mesmo imóvel. Era um negócio da China. Você conseguia multiplicar seu patrimônio em até 200%”, revela Juan Borges.

Vicente Conte Neto e Bruno Burili Santos alegam inocência e dizem que não participaram de esquema para ocultar o patrimônio da construtora e fraudar a recuperação judicial.

O Ministério Público quer que os acusados voltem para o sistema prisional e que a recuperação judicial da construtora seja cancelada.

Aquele aposentado que investiu R$ 200 mil na compra de um apartamento disse que “quer nada deles”. “Só o que é meu. Quero o que eu paguei corrigido”, dispara Antônio de Paula.

Veja outras notícias da região no G1 Goiás.

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