Vacina impede ação da cocaína e do crack
Vacina impede ação da cocaína e do crack
Substância instrui o sistema imunológico do dependente a atacar as moléculas de droga; tratamento obteve sucesso em macacos e será testado em humanos

A solução para tratar o vício em cocaína pode estar na própria molécula da droga. A possibilidade vem sendo investigada há mais de um ano por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que desenvolveram uma vacina capaz de levar o corpo a combater o problema, induzindo-o a produzir anticorpos contra o entorpecente.
“A cocaína era uma droga cara e de acesso restrito. Hoje está presente em todas as classes sociais”, afirma o professor adjunto de psiquiatria da UFMG, Frederico Duarte Garcia, que estuda a vacina em parceria com o professor Ângelo de Fátima, do Departamento de química orgânica.
Além disso, o consumo de drogas como maconha e cocaína, em Belo Horizonte, vem superando os indicadores do país. A cada cem belo-horizontinos, 16 enfrentam problemas ligados à dependência química – são 408 mil pessoas. Desses, 303,9 mil consomem bebidas alcoólicas (12,2% da população da capital); 69,7 mil usam maconha (2,8%); 29,8 mil, cocaína (1,2%); e 4.900, crack (0,2%).
Os dados são da pesquisa Conhecer e Cuidar, feita em 2015 pela UFMG a pedido da prefeitura da capital. O mais grave é que, segundo o Escritório de Drogas e Crimes da Organização das Nações Unidas (UNODC, na sigla em inglês), o consumo de cocaína no Brasil já é quatro vezes a média mundial.
Diante desse cenário, a modificação do sistema imune com uma vacina é, para o pesquisador, a estratégia mais promissora para o tratamento do vício. O estudo conseguiu sintetizar uma nova molécula que leva o organismo a fabricar anticorpos de alta afinidade e, com um método eficaz e seguro, específicos contra o entorpecente.
“Esses anticorpos modificam a farmacocinética da cocaína, reduzindo de 75% a 90% a fração livre da droga na corrente sanguínea. Esse bloqueio impede a entrada das moléculas de cocaína no sistema nervoso central e minimiza os efeitos euforizantes e reforçadores da droga, fazendo o usuário se desinteressar”, explica.
Nos testes feitos em animais, foram usadas quatro doses da medicação, quantidade que, segundo Garcia, apresentou uma resposta “suficiente e duradoura”.
Ainda não é possível saber quantas doses seriam indicadas para humanos, mas o professor adiantou que, “a princípio, a vacina seria utilizada somente para pacientes com dependência química que estivessem fortemente motivados a parar de usar a droga”. Outras utilizações ainda podem ser aventadas como, por exemplo, na prevenção ao abuso da droga por crianças e adolescentes e também no combate ao crack.
“Os ratos que foram vacinados, quando recebem uma dose da droga, não percebem o efeito dela e, com isso, não ficam ‘desinibidos’ ou ‘agitados’ como o grupo que recebeu o placebo”, disse Garcia. Os resultados preliminares apontam que a vacina evita a ação da cocaína em fetos de ratas. Ou seja, ela também tem o potencial de produzir um efeito protetor para os bebês de ratas prenhes.
Assim que terminarem os estudos em animais – que são confirmatórios –, serão realizados novos experimentos, que devem durar mais um ano. “Depois, se conseguirmos recursos para a pesquisa, iremos realizar um estudo de fase I, ou seja, testaremos em voluntários sãos a segurança da molécula. Isso deve levar mais um ano. Só aí poderemos fazer testes com pacientes que são dependentes de cocaína”, projeta o professor.
Pelo mundo
Nos Estados Unidos, cientistas do Instituto de Pesquisa Scripps, da Califórnia, também pesquisam uma vacina similar à da UFMG desde 1995. Nos testes com ratos, a redução dos efeitos da cocaína no sistema nervoso central dos animais foi de até 77%. Testes em humanos devem começar em breve. O professor da UFMG Frederico Garcia acredita que ainda vai levar uns dez anos para que o antígeno seja comercializado no mercado.

(iStock | Nik01ay)
Cientistas americanos anunciaram a criação de algo que pode revolucionar as políticas de combate a drogas: uma vacina capaz de anular o efeito da cocaína e do crack. Ela foi desenvolvida pela Faculdade de Medicina Weill Cornell, em Nova York, e já foi testada com sucesso em ratos e macacos.
Os pesquisadores manipularam o vírus que causa gripe comum – ele foi acoplado a uma molécula artificial, criada em laboratório, que tem exatamente o mesmo formato da molécula de cocaína. Em seguida, esse vírus foi injetado em cobaias. E algo incrível ocorreu: o sistema imunológico dos animais criou defesa contra a molécula.
A partir daí, se o animal consumisse cocaína, ela era destruída pelo organismo. Não chegava ao cérebro, e portanto não produzia efeito. “Nós ensinamos o organismo a ver a molécula de cocaína como intrusa”, explica o geneticista Ronald Crystal, líder do estudo. A vacina também funciona contra o crack.
Ela não causou efeitos colaterais, mas mostrou ter duração limitada: 13 semanas em ratos e sete em macacos. Não se sabe por quanto tempo se manterá eficaz em humanos. Além disso, a vacina não elimina a dependência química e psíquica – o dependente sente falta da droga e continua tendo vontade de consumi-la. A diferença é que, se ele fizer isso, não obterá efeito. Por isso, a vacina não dispensa o acompanhamento psicológico. Mas poderá ser de grande ajuda para quem luta contra o vício.
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