FOTOS IMAGENS-Cidade Clandestinos ou disfarçados, bingos voltam a se multiplicar em São Paulo


Clandestinos ou disfarçados, bingos voltam a se multiplicar em São Paulo. Foto: Guilherme Balza / CBN (Crédito: )

Clandestinos ou disfarçados, bingos voltam a se multiplicar em São Paulo. Foto: Guilherme Balza / CBN

Por Guilherme Balza e Bianca Kirklewski

Tarde de quinta, bairro de Santana, Zona Norte de São Paulo. Uma mulher aborda idosos e faz propaganda de um bingo inaugurado uma semana atrás: o Espaço Cruzeiro do Sul.

“Todo dia, às 13h, abre com R$ 5 mil. E o prêmio de R$ 10 mil é às 18h e às 22h. Todo dia tem uma promoção”.

O local é um grande salão, com centenas de apostadores. O sistema é automatizado, equipado com terminais de jogo e telões. Dezenas de funcionários atendem o público, formado principalmente por mulheres idosas. O jogo custa R$ 2. A cada cinco minutos, uma rodada nova. O prêmio normal é de R$ 100 pela linha e R$ 600 pela cartela cheia, mas pode chegar a R$ 50 mil. Além do jogo, a casa vende comidas e bebidas. O aspecto é idêntico às casas de bingo que funcionavam até 2004, antes da proibição.

Para driblar a lei, os donos alegam que não estão buscando o lucro, e sim fazendo filantropia. Eles dizem à Justiça que trabalham em prol de uma ONG. Assim, conseguem um alvará judicial.

No caso do Cruzeiro do Sul, a ONG é a Associação Educar para Mudar, que nem tem página na internet. Mas mesmo com essa aparência não é difícil encontrar a ilegalidade. A funcionária do bingo, sem saber que estava sendo gravada, indicou por livre e espontânea vontade uma espécie de anexo, na rua ao lado, com centenas máquinas de caça-níquel novinhas.

O lugar parece um bunker. Segurança reforçada, portas de ferro, nada de janelas. Para entrar, tem que tocar o interfone e dizer que vai jogar.

A menos de um quilômetro dali, na Rua Dr. Zuquim, a CBN encontrou outro bingo. Esse nem utilizou ONG de fachada. Funciona na clandestinidade. Já foi fechado pela polícia várias vezes, mas sempre reabre. No fundo do espaço, dezenas de caça-níqueis. Uma senhora de 83 anos tinha acabado de perder R$ 500.

“Gastei R$ 500 hoje, ontem gastei outros R$ 500. Agora vou parar um pouco. Enquanto tem dinheiro eu jogo. Enquanto não ganha toda hora vai ficando louca.”

A duas quadras, em frente ao metrô, funciona o bingo Mansão Santana. O espaço foi fechado pela polícia em março, depois que duas pessoas foram mortas em um tiroteio, mas logo reabriu. O bingo usa a imagem da ONG Quem Ama Cuida de SP, mas a entidade está prestes a fechar porque não tem dinheiro. Até agora não ganhou nada do bingo. A casa também tem máquinas caça-níquel escondidas num imóvel vizinho.

Na Zona Sul, três casas também usam ONGs para driblar a lei. No Itaim, o Espaço Real da Sorte se associou ao Projeto Esperança de São Miguel. Um dos sócios é o empresário paraguaio Jorge Escobar, que já foi preso duas vezes por estelionato, a última em abril. A casa está em nome de Denis Mandelbaum, que atua no ramo de bitcoins. Ele nega irregularidades.

“Hoje de fato eu não tenho mais nenhuma ligação. Apesar de a empresa que está no meu nome ainda estar no endereço lá. Mas é uma empresa que não está operante. Não há irregularidade nenhuma. É feito de acordo com a lei sobre a exploração de bingos por entidades beneficentes”

Outras duas casas são ligadas ao mesmo grupo, segundo os funcionários. Os ambientes têm a mesma identidade visual. Criado há quatro meses, o Espaço Morato, na Vila Sônia, pertence a Vartan Chorbajian Neto, sócio de Denis em outra empresa. Vartan alega que já se retirou do bingo, mas é o nome dele que aparece no registro na Junta Comercial. O bingo diz que trabalha em prol da ONG Projeto Expedições, que não tem site, registro ou endereço.

Já o Espaço Real São Judas usa a imagem da Casa Expedições, projeto que fechou por falta de recursos. O bingo diz que opera na legalidade, mas seguranças do espaço tentaram impedir a reportagem de tirar uma foto da fachada.

– Aqui não pode fotografar. Você está tirando foto?

– Estava

– Mas não pode fotografar (…) Tem algum motivo? Qual é o motivo de você ter fotografado?

Há também bingos que foram fechados mais de uma vez nos últimos anos e funcionam a todo vapor, como o do tradicional Clube Piratininga, em Higienópolis, e um na Rua Guaicurus, na Lapa.

OUTRO LADO

A reportagem não localizou os responsáveis pelos bingos Mansão Santana, Espaço Cruzeiro do Sul e Espaço Real São Judas, já que os estabelecimentos não têm telefone ou outra forma de contato divulgada. A administração do Clube Piratininga não retornou aos contatos feitos.

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