Com prejuízo líquido superior a R$ 400 milhões no terceiro trimestre de 2015, adoção de medidas de contenção de gastos que envolvem redução da capacidade doméstica no Brasil e até devolução de aeronaves, a Latam anunciou no início de novembro que decidiu adiar para 2016 a definição sobre a sede do seu centro de conexões de voos (hub) no Nordeste. Segundo a companhia, porém, as dificuldades financeiras não têm qualquer relação com o adiamento. Especialistas ouvidos pelo NOVO contrapõem o argumento.
Desde maio passado, quando a Latam anunciou a procura de uma sede para  instalação do seu centro de conexões, estimado recentemente em R$ 10 bilhões, o assunto se tornou a principal pauta política e econômica dos três estados concorrentes: Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, que se comprometeram em atender várias demandas exigidas pela empresa. A companhia contratou consultorias técnica e econômica (já apresentadas) para avaliar a capacidade dos estados envolvidos.
O prazo de anúncio da decisão, estipulado pela própria empresa, era dezembro deste ano. Entretanto, alegando necessidade de mais informações técnicas, a Latam deixou a divulgação do resultado para o primeiro semestre de 2016.
O diretor do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Jean-Paul Prates, considera que a decisão tem mais relação com a situação econômica da América Latina e da própria companhia do que com a concorrência entre as cidades nordestinas para sediar  o investimento.
Atuante nas áreas de energia e logística, o especialista avalia que a decisão pode ter sido tomada para dar uma resposta especialmente aos investidores internacionais. Tanto é, aponta, que o comunicado foi inicialmente para o mercado exterior. Apesar de o momento de crise ser propício para novas oportunidades, a situação causa preocupação de quem investe e arrisca dinheiro.
“Como a Latam vai explicar para eles um investimento desse porte quando os números apontam um mercado desaquecido?”, questiona. “Na minha visão, a empresa resolveu esperar o primeiro semestre do próximo ano, que é quando todo mundo espera que a situação comece a se normalizar, para fazer esse anúncio”, argumenta.
Prates ainda pondera que a decisão de adiar o anúncio da escolha foi prejudicial especialmente para o Rio Grande do Norte – estado que, na sua concepção, está amplamente à frente dos concorrentes nos quesitos técnicos. “Não que o estado fique em desvantagem com isso. Mas eles poderiam ter anunciado a decisão e informado que esperariam mais um pouco para começar o investimento”, argumenta.
Mas isso não deixa de ser um prazo a mais para a companhia acompanhar a evolução dos estados nos investimentos em infraestrutura aeroportuária e no cumprimento dos compromissos firmados para atrair o hub. É o caso da conclusão dos acessos Norte e Sul ao aeroporto de São Gonçalo do Amarante.
DÓLAR E INVESTIMENTOS
Professor de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Carlos Alberto Medeiros leciona a disciplina de Logística e corrobora com a opinião de Jean-Paul Prates. Ele aponta pelo menos duas razões principais que influenciaram a empresa pelo adiamento do anúncio. A primeira seria o fator cambial.
“A América Latina é o grande mercado da Latam. Aqui a empresa está recebendo em Real, mas o custeio dela com as aeronaves, por exemplo, é em Dólar. Ou seja, com a situação cambial atual, ela está numa situação mais difícil”, justifica.
Apesar disso, destaca ele, a companhia tem uma situação mais confortável que concorrentes como a Gol, que amargou prejuízo de R$ 1,027 bilhão no primeiro semestre do ano.
Outra razão para o retardamento do investimento, de acordo com o professor, seria o interesse que o grupo detentor da British Airways e da Ibéria teria em uma fusão com a Latam. A informação passou a circular na imprensa especializada em aviação no início do mês. A Latam poderia estar esperando a concretização, ou pelo menos avanços nas negociações. As três empresas integram a aliança Oneworld.
Medeiros ainda afirma que a decisão quanto à sede do hub já foi tomada pela empresa. E ele acredita que Natal seja a escolhida, por razões técnicas. “Estamos 20 anos à frente dos outros candidatos. Eles se beneficiaram agora com um tempo a mais. Mas quem vai bancar para que os aeroportos tenham condições de receber um hub nesse momento?”, questiona.
COMPANHIA NEGA RELAÇÃO
A Latam nega que haja qualquer relação entre a decisão de adiamento do anúncio com os aspectos financeiros da companhia. “Os motivos para essa decisão são exclusivamente relativos à infraestrutura aeroportuária”, assegura em nota enviada ao NOVO.
No documento, a empresa ainda ressalta que mantém o plano de investimento e continua os estudos para escolher a melhor a sede do primeiro hub da região Nordeste. “O Grupo Latam assegura que continuará avaliando todas as condições para a definição da capital que será a sede do hub Nordeste. Esta decisão poderá ocorrer ainda no primeiro semestre de 2016. A iniciativa do hub permanece no plano de investimentos do Grupo”, pontua.
Em nota sobre o balanço financeiro do terceiro semestre, publicado no site da companhia na semana passada, a Latam afirmou: “Como resultado de um ambiente macroeconômico mais fraco na América do Sul e as desvalorizações significativas das moedas latino-americanas durante o período, especialmente a desvalorização de 55,5% do Real, as receitas totais do Grupo no terceiro trimestre de 2015 diminuíram  19,9% em comparação ao  terceiro trimestre de 2014”.