PENDÊNCIAS RN-VARZEANOS SE ENCONTRARAM EM BRASÍLIA NO ENCONTRO DE MESTRES GRIÓS DE CULTURA


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Durante a Teia 2008, realizada em Brasília, um encontro inesperado aconteceu entre os representantes do Ponto de Cultura Casarão de Ofícios do Rio Grande do Norte e um Mestre de Tradição Oral de Boa Vista, Roraima. Nascido em Pendências, mas distante da terra natal há muitos anos, Afonso Rodrigues de Oliveira é escritor e também desenvolve trabalhos como escultor na região norte do país. O encontro e os seus significados de aprendizagem são contados por Alexsandra da Conceição Dantas, griô-aprendiz do Projeto Porto da Memória, desenvolvido pelo Casarão de Ofícios no distrito do Porto do Carão, município de Pendências.

Ser um eterno aprendiz é algo que deveria ser inerente a todos os seres humanos, pois, quem sabe, assim erraríamos menos, sofreríamos menos e seriam menores as mazelas do mundo. Em contrapartida, todas as formas de amor seriam, certamente, maiores.

Esses pensamentos me afloravam a todo instante quando me via cercada por homens e mulheres de cabelos branquinhos, de pele marcada pelo tempo, de saúde frágil e alguns de visível carência econômica. Em todos, porém, havia a marca do conhecimento, do aprendizado de muitos caminhos percorridos: são os GRIÔS, os mestres do povo, os nossos mestres.

Vi em todos eles a força, a coragem, a alegria de viver que, aliás, era contagiante. Por isso homenageando a todos, destaco a figura de minha mestra Maria das Dores Barbosa – DODORA – com quem aprendo os saberes acumulados ao longo da vida e que compartilha conosco no Projeto Porto da Memória, desenvolvido pelo Ponto de Cultura Casarão de Ofícios no Distrito de Porto do Carão, neste município de Pendências.
Sempre ativa, participando nas rodas de conversa, nas apresentações culturais e no cortejo realizado durante a programação da Teia 2008, em Brasília, caminhado até o Congresso Nacional, sempre alegre, encantou a todos, conhecidos ou não.

Lembro aqui as suas palavras:
Primeiramente agradeço a Deus por me conceder tamanha coragem para enfrentar a vida… com a saúde que ainda me resta. E assim gozar da liberdade de fazer as coisas que tanto gosto: trabalhar em grupo e com grupos de pessoas especiais que se identificam como irmãos em Cristo, pessoas humanas com os mesmos ideais: valorizar o que ainda resta de bom no mundo, a CULTURA, o saber, a liberdade e a igualdade (Fala de Dodora, Mestre Griô do Ponto de Cultura Casarão de Ofícios).

Dodora, minha mestra, encontrou por acaso uma família de artistas: pai, mãe e filha, ambas caracterizadas como personagens de uma dança típica. Para minha surpresa, quando olho, lá estava ela cantando e dançando com essas pessoas… Virou festa, foi fotografada, gravaram sua voz e filmaram sua imagem. Depois, ganhou beijos e abraços da família inteira.

Registro aqui suas impressões sobre a participação na programação do 3º Encontro Nacional dos Pontos de Cultura (TEIA 2008) que reuniu em Brasília, de 12 a 16 de novembro, cerca de 1800 pessoas, entre participantes e equipe de produção:

[…] A viagem a Brasília foi ótima, proporcionou-me rever e conhecer pessoas
muito interessantes de vários estados desse nosso maravilhoso e belo Brasil.
[…] O ponto alto para mim nessa viagem foi o encontro inesperado com um
conterrâneo que não visita Pendências há trinta e dois anos: o Senhor Afonso
Rodrigues de Oliveira, primo do nosso saudoso Escritor Manoel Rodrigues de
Melo. Afonso é dessas figuras que […] nos encanta rapidamente. Reside
atualmente em Boa Vista, onde escreve para um jornal local e trabalha como
escultor, construindo belas imagens. […] Deu-nos seu e-mail e ficamos de
manter contato (Fala de Dodora, Mestre Griô do Ponto de Cultura
Casarão de Ofícios).

Concordo plenamente com Dodora. Seu Afonso, Griô da região das águas e que mora em Boa Vista-RR, é um perfeito cavalheiro: educado, atencioso… gentil. Ficamos muito felizes em conhecê-lo, saber de suas raízes em Pendências, manter contato com ele posteriormente ao evento e informar o seu endereço a seus familiares.

O belo de todo esse encontro são as oportunidades que a Ação Griô desenvolvida pelo Ministério da Cultura tem proporcionado às pessoas: conhecer a realidade cultural de outros estados, interagir com pessoas com os mesmos ideais e até mesmo reencontrar conterrâneos como seu Afonso Rodrigues, depois de tantos anos sem notícias de sua gente.

Participar da TEIA 2008 foi uma experiência única. Aprendi e com certeza aprenderei muito mais no contato com mestres e mestras do povo – a quem agradeço de coração por me possibilitarem essa oportunidade. E agradeço a Deus pela graça de me proporcionar a honra de ser aprendiz de uma grande Mestra: DODORA.

Reproduzimos aqui o poema Porto de Memórias, de autoria de Dodora, trechos do e-mail que nos enviou o Sr. Afonso Rodrigues de Oliveira e um trecho de Manoel Rodrigues de Melo, extraído do livro Várzea do Açu, a que ele faz referência em sua correspondência, além de fotografias do nosso encontro em Brasília e outras importantes para o conhecimento dessa história.

PORTO DE MEMÓRIAS
Maria das Dores Barbosa (Dodora)

Como fazemos nossa história?
Construindo textos
Escrevendo rimas
Lembrando a cultura
Que a todos anima
Porto de Memórias
Que aprende e ensina

Memórias antigas
Ensinos presentes
Idosos à frente
Jovens e crianças
Também inseridos
Contando estórias
Brincadeiras antigas
Tudo isso é…
Porto da Memória

É só isso, não!
E os velhos artistas?
Que cantam e recantam Cantigas bonitas
E as curandeiras
Que dão entrevistas
Também as parteiras
Coisa nunca vista
Porto de Memórias
Que coisa bonita.

TRECHOS DO E-MAIL ENVIADO POR AFONSO RODRIGUES DE OLIVEIRA

“Boa Vista – 17/12/08.
Alexsandra,

[…] Meu nome é Afonso Rodrigues de Oliveira. Nasci aí em Pendências em 1934. Faz tempo pra dedéu. Meus pais eram: Joaquim Rodrigues Ferreira e Vitalina Rodrigues de Oliveira. Ambos aí de Pendências. Ele do Alto do Rodrigues e ela daí mesmo. Saí daí ainda criança e me criei em Natal de onde saí para São Paulo em 1950. A família do meu pai, só a conheci em Natal, inclusive o Manuel Rodrigues de Melo que era primo do meu pai. Caso você tenha, por aí, o livro do Badéu, “Várzea do Açu”, na edição de 1979, na página 117, no capítulo “As Incelenças”, ele, Manuel, faz uma alusão ao meu velho pai como seu parente.

[…] A família de minha mãe é toda daí de Pendências. Eu estive aí em 1976. Fiquei só três dias, porque não conhecia mais ninguém e ninguém me conhecia. Mas foi legal. Toda a família da minha mãe só era conhecida aí pela alcunha de “Bage”. José Bage, meu avô; Ana Bage, minha avó que sempre teve um “Café”, aí no velho mercado Municipal. Chico, Cisquito, Mesquita, todos Bage; que era como eram conhecidos. As mulheres eram Francina, Mocinha, Vitalina e Sofia. Ainda estavam aí quando estive […]. Moravam aí em frente ao Mercado. Os moradores mais velhos devem tê-las conhecido. Sei que ainda tenho parentes por aí e gostaria de localizá-los. Se você puder fazer alguma coisa, vou te agradecer até no céu.

[…] Estive em Brasília como Mestre de Tradição Oral, na Região das Águas, CE-AM-MA-PA-PI-RR, no grupo “A Bruxa Tá Solta”. Sou estreante. Aquele foi meu primeiro encontro. Pela minha idade já deu pra ver que sou aposentado; mas não preguiçoso. Levo uma vida bem ativa. Sou articulista no jornal FOLHA DE BOA VISTA, com uma crônica diária, há 25 anos. Você pode acessá-la no site www.folhabv.com.br . Estou na página de Opinião. Sou membro da Academia Roraimense de Letras-ARL. Sou membro fundador, há 20 anos. Ocupo a cadeira n° 13, cujo patrono é Luís da Câmara Cascudo. Tenho uma família tão maravilhosa quanto numerosa. São cinco filhos e uma filha; treze netos e um bisneto.
[…] Minha esposa, Maria Salete de Oliveira, é de Macau; filha de Pedro Simeão de Góis e Maria Anunciada de Góis. Em maio deste ano, dia 17, comemoramos nossos cinqüenta anos de casados.

[…] Um abração do tamanho do mundo pra você e obrigado por ter me enviado o e-mail”.

AS INCELENÇAS – Manuel Rodrigues de Melo
(Extraído de Várzea do Açu, paisagens, tipos e costumes do Vale do Açu, IBRASA/MEC,
1979)

O Nordeste tem uma longa e respeitável tradição de louvores aos Santos do Agiológio Católico, sinal do apego e da devoção que o povo tem pelas coisas da Religião.

Este nobre sentimento de amor a Deus, manifestado de mil modos pela gente do Nordeste, não é exclusivo nem peculiar a esta região. É de todo o Brasil que nasceu e tem
vivido à sombra maternal e acolhedora da Igreja Católica.

O mesmo fenômeno já notara Sarmiento em relação ao seu povo quando fala na religiosidade do homem argentino.
No Rio Grande do Norte esse sentimento é inato ao coração do homem. Aluízio Alves notou-o quando mencionou, bem vivas e acesas, na alma do povo angicano, as reminiscências das incelenças.

E agora, penetrando melhor a alma e o coração do povo açuense, vejo que as suas manifestações de religiosidade surgiram ali com os primeiros colonizadores que pisaram o chão dadivoso da terra amiga e generosa.

Os terços e as novenas, entrecortados de benditos, ladainhas e rezas, culminavam sempre com os beijas invariáveis, sob os estouros e papoucos dos fogos do ar e dos foguetões.

Não só isto.

As incelenças, cantadas e disseminadas por toda a região do Baixo Vale, eram uma forte reminiscência do povo da região.

Joaquim Rodrigues Ferreira, meu parente e velho batedor de terços e novenas da região, traz a sua preciosa colaboração a este ensaio, copiando três tipos de incelenças que definem e caracterizam bem o espírito devoteiro do povo da várzea.

Ei-Ias a seguir:

Uma incelença da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre nasceu o Sacrário
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
Visitar as Almas que vão para a Glória
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por uma incelença que está se rezando.

Duas incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
Visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por duas incelenças que estão se rezando.

Três incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre Nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por três incelenças que estão se rezando.

Quatro incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por quatro incelenças que estão se rezando;

Cinco incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por cinco incelenças que estão se rezando.

Seis incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória. Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por seis incelenças que estão se rezando.

Sete incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre Nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por sete incelenças que estão se rezando.

Oito incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre Nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por oito incelenças que estão se rezando.

Nove incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por nove incelenças que estão se rezando.

Dez incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por dez incelenças que estão se rezando.

Onze incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória.
Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por onze incelenças que estão se rezando.

Doze incelenças da Virgem do Rosário
Que do vosso ventre Nasceu o Sacrário.
O Sacrário aberto, o Senhor saiu fora
A visitar as Almas que vão para a Glória Alma ou Alma!
Por quem estais esperando?
Por doze incelenças que estão se rezando.

(Segunda)

Uma incelença .
Que nos dê o paraíso
Adeus irmão, adeus
Até dia de juízo.
(E vai repetindo as mesmas palavras até o número doze)

(Terceira)

Uma incelença .
A Nossa Senhora das Dores.
Os Anjos lá do céu
Cantando louvores.
(E vai repetindo as mesmas palavras até o número doze)

Alexsandra da Conceição Dantas



Levany Júnior

Levany Júnior é Advogado e diretor do Blog do Levany Júnior. Blog aborda notícias principalmente de todo estado do Rio Grande do Norte, grande Natal, Alto do Rodrigues, Pendências, Macau, Assú, Mossoró e todo interior do RN. E-mail: [email protected]

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