Na sala de espera do Roger


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Na sala de espera do Roger

Por exigência da profissão, entrevistei o ex-médico Roger Abdelmassih algumas vezes. Uma das coisas que me irritavam especialmente nele era a insistência para estar em todas as matérias sobre infertilidade

 

Entrevistei o ex-médico Roger Abdelmassih algumas poucas vezes. Ele trazia pesquisadores estrangeiros para a sua clínica com frequência 
e fazia questão de dar uma palavrinha com o repórter depois do papo com os especialistas de fora. E sempre rolava algo meio dissonante em relação ao que os gringos tinham dito. Muitas vezes as coisas não batiam….Percepção igual tiveram colegas jornalistas como a Vera Lígia Rangel e a Juliane, ex-companheira de ISTOÉ que fez algumas entrevistas com o ex-médico há mais de onze anos, quando por trocar a redação pela comunicação corporativa.

Juliane assistiu uma cena daquelas reveladoras, que ajudam a saber mais sobre a pessoa. Ela conta que o esperava por mais de duas horas para uma entrevista quando o ex-médico saiu de sua sala eufórico. Com os braços abertos, saudou efusivamente um casal que também o aguardava pelo teste positivo de gravidez. Depois de festejar, olhou para o casal do lado, balançou a cabeça e disse, na frente de todo mundo: “Para vocês não deu certo. Sinto muito.” Juliane conta que o homem e a mulher que não tinham conseguido engravidar abaixaram a cabeça e pareciam querer sumir daquela sala o mais rápido possível. Nenhum consolo, nenhum abraço, nenhuma empatia com o sofrimento do outro.

Eu, particularmente, nunca gostei de falar com ele. Tinha qualquer coisa meio arrogante, meio encenada, mas era apenas uma sensação, nada concreto. O fato é que me sentia desconfortável. Podia ser apenas falta de empatia. Uma vez, o ex-médico Roger me deixou duas horas e meia plantada na sala de espera. Emergência, pensei. Esperei mais uma hora. Nenhuma explicação. Cansei. Fui embora. Cheguei na redação e me aguardava um recadinho do ex-médico. Ele tinha pedido ao assessor para ligar reclamando por eu ter ido embora. Por que a repórter não esperou? E levei cutucões muitas outras vezes porque não o incluía nas matérias de infertilidade. Vinha sempre um telefonemazinho para participar que o Dr. Roger ficara chateado. Nessas ligações, ele reafirmava que estaria disponível para ajudar em qualquer material, arrumaria personagens…uma preocupação excessiva de estar em todas, apesar de já ser tão conhecido.

Lembro-me que o ex-médico ofereceu, certa vez, um tratamento gratuito para uma amiga jornalista que não conseguia ter filhos. Aproximou-se de muita gente assim, o ex-médico Roger, por meio de gentilezas e favores. De políticos, juristas, celebridades, jornalistas. Minha amiga e eu conversamos muito sobre os riscos e benefícios de aceitar a oferta do ex-médico e ela decidiu que pagaria pelo menos os medicamentos. No meio do processo, minha amiga teve um problema chamado hiperestimulação ovariana e ficou com a barriga inchadíssima e de cama. Tempos depois, um outro médico descobriu que a infertilidade da minha amiga se devia a uma aderência de tecidos que obstruía parcialmente as trompas. Ela se tratou e engravidou mais de uma vez sem se entupir com a dose elevada de hormônios que o ex-médico Roger a fez tomar. Coisa de médico prêt-à-porter, que não investiga o suficiente as causas do problema e vai logo pro tratamento padrão e com maior chance de sucesso.
Tomara que agora que as máscaras caíram as pessoas se sintam libertas dos elos intencionalmente cultivados pelo ex-médico e tenham a independência necessária para garantir que ele cumpra sua pena.

 

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Levany Júnior

Levany Júnior é Advogado e diretor do Blog do Levany Júnior. Blog aborda notícias principalmente de todo estado do Rio Grande do Norte, grande Natal, Alto do Rodrigues, Pendências, Macau, Assú, Mossoró e todo interior do RN. E-mail: [email protected]

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