MOSSORÓ RN-Humano: Caminhões no telhado de Avanildo Silva


Crédito da foto: Leonardo MatosoEm situação de rua, Avanildo Silva vive debaixo do viaduto da Av. João da Escóssia entre doações e p

André Bisneto/Da Redação

“Deixe aparecer as garrafas. Como é que vão saber que é o cara?”

Dois homens pressionam contra os ombros um terceiro. Ao lado de duas caixas de isopor amareladas, eles se apertam enquanto encaram a câmera do celular. Após duas tentativas, conferem o resultado dos cliques. A fotografia não ficou boa: contra a luz, o azul do fardamento dos homens tornou a foto mais escura. Entretanto, parecem contentes com o registro.

Sob o viaduto na Avenida João da Escóssia, Avanildo Roberto da Silva, 48, pousa para fotos com bom humor. O homem de ombros ossudo e tez escura se viu, repentinamente, no centro das atenções da cidade após um vídeo, no qual aparece vendendo água para sobreviver, viralizar nas redes sociais.

No vídeo, que possui mais de 1.700 visualizações, o homem de estatura baixa aparece vendendo água e refrigerantes em uma das principais avenidas de Mossoró. Visivelmente tímido na gravação, Silva responde ao seu interlocutor em tom envergonhado, convidando as pessoas a comprar seus produtos.

“Esse isopor menor aí foi doação de um empresário. Ele fez esse cartaz também e me deu os refrigerantes e as águas para vender. Ele meio que começou essa nova carreira para mim”, conta Silva, enquanto busca um pedaço de papel no bolso esquerdo da bermuda bege para preparar um cigarro.

Há pouco tempo em Mossoró, Silva releva que nasceu na pequena Itaí (PE), que atualmente conta pouco mais de 19 mil habitantes. Com 7 irmãos, o itaiense diz que foi o único da família a deixar a cidade pernambucana para trás. Mas, fala com certa mágoa de quem teve que partir sem escolha.

“Saí de casa porque eu era pisado. Faziam assim comigo”, fala enquanto pressiona a ponta do pé direito na areia e tenta esmagar algum inseto imaginário. Desiste. Volta a sentar no colchão pouco gasto que recebeu de doação e que utiliza como cama. Enquanto coloca o fumo preto no pequeno pedaço de papel de caderno que tirou do bolso, mais pessoas vêm vê-lo.

Duas mulheres em uma moto Biz chamam o rapaz, que conversa com elas por alguns instantes. Elas resolvem estacionar enquanto ele sai para procurar algo entre suas coisas. Além do colchão, Silva estendeu um lençol, que em algum momento lembra a cor branca, para guardar seus objetos pessoais: que incluem uma bíblia, roupas e doações diversas.

“Vimos o vídeo dele no Facebook, sabe? E nos falaram que ele também faz doação, porque está recebendo muita coisa. Como estamos arrecadando para uma amiga que está precisando, pensamos em vir conversar com ele”, conta uma das mulheres.

Sem muita demora, Silva retorna segurando uma cesta básica nos braços. Caminha com passos firmes, aparentando felicidade no gesto. Repassa para as mulheres a doação recebida. E diz, em uma de suas muitas referências religiosas, que é dando que se recebe. Com a partida das mulheres, finalmente acende o cigarro preparado com esmero.

Contudo, o bom humor aparente enterra em cova rasa as cicatrizes guardadas debaixo das marquises. Sem clareza de raciocínio, Silva narra que esteve em muitos lugares, incluindo uma temporada em uma prisão sul-mato-grossense.

“Já me prenderam três vezes. Armaram para mim, sabe? Lembro-me que na primeira vez, lá no Mato Grosso do Sul, falaram que eu matei uma pessoa. Mas, Deus fez aparecer uma advogada que conseguiu me tirar de lá [da prisão]”, diz em tom agradecido.

Os olhos amarelados ofuscam a ponta avermelhada do cigarro fumado por Silva, que diz já ter usado maconha, cocaína e crack durante o tempo em que dorme nas calçadas. Entre a profusão de sons da BR 304, Silva revela que mora na rua desde 2012, quando o expulsaram de casa, mas que deseja ter uma casa novamente, para guardar suas coisas.

Em raro momento de perspicuidade, o homem de corpo magro é taxativo: “Fama? Que fama é essa? Eu continuo dormindo entre os carros após as fotos.” Contudo, não dura. Volta a exibir os poucos dentes que lhe restam em um sorriso infantil.

Em Mossoró, cerca de 95 pessoas estão em situação de rua. E apesar dos serviços de apoio ofertados pelos Centros de Referência Especializados em Assistência Social (CREAS) e do programa Consultório na Rua, durante os primeiros seis meses deste ano, cinco pessoas em situação de rua foram assassinadas.

Enfermeiro e estudante de Jornalismo na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Leonardo Matoso foi um dos primeiros internautas a postar a história de Avanildo nas redes sociais. Para o estudante, a rede solidária criada em torno do itaiense poderá impactar positivamente a percepção das pessoas sobre a população em situação de rua.

“Quando publiquei suas imagens e história na minha página pessoal do Instagram, muitas pessoas vieram falar comigo perguntando como poderiam ajudá-lo. Existem muitas pessoas em Mossoró que desconhecem a existência de pessoas em situação de rua como Avanildo. Na verdade, existem muitos Avanildos pela cidade”, argumenta o estudante.

O peso dos caminhões que sobem no teto da casa de Avanildo faz as paredes estalar. O som é constante, sempre entrecortando a fala do morador. Contudo, não parece incomodá-lo, que continua a divagar em tom filosófico. A conversa é existencialista, com a presença de argumentos niilistas do itaiense, sem que jamais abandone o tom teológico do que é dito.

“Amiguinho, te conto o resto da história depois. Agora preciso ir. Vou arrancar um dente”, conta exibindo os cinco dentes superiores amarelados que lhe restam em um sorriso largo. A visita ao dentista será outra doação de um dos seus benfeitores. E antes de deixá-lo no Fiat Toro Vermelho, vejo arrumar o colchão enquanto brinca: “Você não quer ficar de olho aqui enquanto faço meu tratamento dentário?”, e ri genuinamente feliz.

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