MACAÍBA RN-Com isenções e subsídios, China constrói a cidade do iPhone


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Jornal GGN – Reportagem do New York Times mostra o funcionamento da fábrica da Foxconn, parceira da Apple, na cidade chinesa de Zhengzou, chamada de ‘iPhone City’. Segundo o jornal, mais de US$ 1,5 bilhão foram concedidos em benefícios do governo local para construir seções da fábrica, alojamentos para os funcionários, além de usinas elétricas e pavimentação de estradas.
Custos de energia e transporte são cobertos com a ajuda do governo, que também recruta trabalhadores e paga bonificações para a fábrica quando ela atinge metas de exportação.
A matéria analisa os esforços da China para atrair empresas, com governos municipais e das províncias oferecendo pacotes de incentivos para multinacionais.
Leia a matéria completa abaixo:
Da Folha
David Barboza
Um vasto centro de alfândega funciona como uma movimentada ilha de comércio internacional bem no centro da China.
Funcionários do governo correm em torno de pallets de madeira repletos de caixas —contando, pesando, digitalizando e aprovando embarques. Caminhões sem identificação de frota formam filas de mais de 1.500 metros de extensão esperando a próxima carga, destinada a Pequim, Nova York, Londres e dezenas de outros destinos.
São instalações modernas e funcionais, construídas alguns anos atrás a fim de atender a um só exportador mundial: a Apple, que hoje é a empresa de maior valor de mercado no planeta e uma das maiores companhias no varejo chinês.
A rotina alfandegária muito bem coreografada é parte dos generosos benefícios, isenções tributárias e subsídios com os quais a China apoia a maior fábrica mundial de iPhones, de acordo com registros públicos confidenciais examinados pelo “New York Times” e com mais de 100 entrevistas com operários, agentes logísticos, motoristas de caminhão, especialistas tributários e antigos e atuais executivos da Apple.
O pacote de benefícios e incentivos, em valor de bilhões de dólares, tem papel central na produção do iPhone, o mais vendido e mais lucrativo produto da Apple.
Tudo isso está centrado em Zhengzhou, cidade de seis milhões de habitantes localizada em uma região empobrecida da China. Operando a pleno vapor, a fábrica lá instalada, controlada e operada pela parceira industrial da Apple, a Foxconn, tem capacidade de produzir 50 mil iPhones ao dia. Os moradores locais se referem a Zhengzhou como “iPhone City”.
O governo local se provou imprescindível, concedendo mais de US$ 1,5 bilhão à Foxconn para a construção de vastas seções da fábrica e de alojamentos para funcionários em suas imediações. Estradas foram pavimentadas e usinas de energia construídas.
O governo ajuda a cobrir os custos de energia e transporte da operação. Recruta trabalhadores para a linha de montagem. Paga bonificações à fábrica quando esta atinge metas de exportação.
Tudo isso em apoio à produção do iPhone.
“Precisávamos de alguma coisa que pudesse realmente desenvolver essa parte do país”, disse Li Ziqiang, funcionário do governo de Zhengzhou. “Há um velho ditado na China: se você construir o ninho, os pássaros virão. E estão vindo, agora”.
As autoridades dos Estados Unidos há muito criticam o apoio da China às empresas estatais do país, definindo os subsídios e outras formas de assistência como uma forma de vantagem competitiva desleal no mercado mundial. Mas a operação de Zhengzhou mostra como são grandes os esforços da China para atrair empresas multinacionais a centrais de produção no país.
As autoridades municipais e provinciais cortejam indústrias com pacotes de incentivos que tornam mais fácil e barato operar. Pequim há décadas encoraja esses esforços em nível nacional, por meio do desenvolvimento de zonas econômicas especiais que oferecem incentivos fiscais a multinacionais e as isentam de regras dispendiosas e complicadas.
Quanto a isso, a China não difere muito de outros países, entre os quais os Estados Unidos, onde Estados e municípios competem para atrair empresas. Para concorrer na era da globalização, as multinacionais, que enfrentam pressões de acionistas e clientes, precisam buscar as melhores oportunidades, e para isso confiam cada vez mais em uma rede de suprimentos altamente interconectada que se estende por todo o planeta.
Na China, a competição por atrair empresas é sigilosa e raramente exposta a escrutínio ou debate público – e muitas vezes tem por foco parceiros de fabricação e não as multinacionais envolvidas.
Embora a Apple tenha chegado depois de muitas empresas de tecnologia, ela agora gera cerca de um quarto de sua receita com vendas na China, e ostenta algumas das mais generosas margens de lucro do setor.
Assim, a operação de Zhengzhou oferece uma imagem especialmente ilustrativa da importância da China para as empresas de tecnologia norte-americanas —e especificamente para a produção do iPhone e, mais recentemente, para as vendas da Apple no varejo.
Um iPhone 7 de 32 gigabytes tem custo estimado de produção de cerca de US$ 400. O aparelho é vendido por cerca de US$ 649, e a Apple fica com uma parte da diferença como lucro. O resultado é que a Apple administra cerca de 90% do lucro do setor mundial de smartphones, ainda que responda por apenas 12% das vendas, de acordo com a Strategy Analytics, uma empresa de pesquisa.
É difícil calcular o valor total dos benefícios governamentais à operação de Zhengzhou ou determinar o efeito exato que eles exercem sobre os lucros da Foxconn ou da Apple. Os subsídios não são revelados pelo governo chinês ou pela Foxconn. Não há como verificá-los nos registros públicos. E a Apple diz que não participou das negociações entre a Foxconn e a China.
Como maior empregadora do setor privado chinês, a Foxconn, uma empresa taiwanesa, tem enorme influência sobre as negociações de incentivos. O tamanho e escala da companhia estão relacionados à Apple. A Foxconn é a maior fornecedora da Apple. A Apple é a maior cliente da Foxconn.
Em Zhengzhou, as duas empresas se entrelaçam. Quando a fábrica foi inaugurada, a Apple era a única cliente da Foxconn na cidade. Mesmo agora, a empresa norte-americana de tecnologia responde por quase toda a produção da fábrica de Zhengzhou, onde cerca de metade dos iPhones mundiais são fabricados. A Apple também é o principal exportador a utilizar as instalações alfandegárias da cidade.
A crescente hostilidade à globalização coloca a Apple e outras grandes multinacionais diretamente na mira de dois gigantes cada vez mais combativos: os Estados Unidos e a China.
O presidente eleito Donald Trump prometeu empregar toda a força do governo contra empresas norte-americanas que transfiram empregos ao exterior, e ameaça impor tarifas punitivas aos produtos que elas vendem nos Estados Unidos. A Apple vem sendo alvo frequente das críticas de Trump.
A China, sob a liderança do presidente Xi Jinping, está se tornando menos tolerante e mais suspeitosa quanto à influência ocidental, especialmente a das grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos, que influenciam fortemente os consumidores chineses. Uma publicação estatal classificou a Apple como um dos “guerreiros guardiões” que “penetraram silenciosamente” na China e podem representar ameaça à segurança nacional.
A China, que já não deseja ser apenas a fábrica do planeta, está agindo agressivamente para desenvolver gigantes tecnológicos nacionais. Pequim está pressionando os governos locais a reduzir programas de subsídios que as autoridades nacionais encorajavam vigorosamente alguns anos atrás. E os grandes exportadores, por décadas cortejados e protegidos pelas autoridades de Pequim, agora estão sofrendo severo escrutínio.
As autoridades regulatórias fecharam a iTune Movies e a iBooks Store da Apple na China, no ano passado. O governo chinês multou a gigante da tecnologia por não pagamento integral de seus impostos. E a Apple passou por uma revisão de segurança nacional do iPhone 6, na China, o que retardou o lançamento do modelo naquele país.
Agora, a Apple está envolvida em uma versão empresarial dos contatos pessoais que caracterizam a diplomacia internacional. Em dezembro, Tim Cook, o presidente-executivo da empresa, acompanhado por outros executivos do Vale do Silício, se reuniu com Trump em Nova York como parte de um esforço para criar vínculos com o novo governo.
A reunião se seguiu a uma excursão semelhante à China em agosto, quando Cook e o primeiro-ministro assistente do país conversaram em Zhongnanhai, o complexo murado que abriga a liderança do país em uma área que no passado fez parte da cidade imperial de Pequim.
Os dois países estão envolvidos em um jogo perigoso.
A Apple, como muitas multinacionais, depende de uma vasta cadeia mundial de suprimentos que inclui múltiplas empresas e países, cada qual com seus conhecimentos e vantagens específicos – uma complexidade que muitas vezes é desconsiderada no debate político sobre o comércio internacional. O iPhone é uma coleção de componentes complicados que são fabricados no mundo todo e montados na China, gerando empregos em muitos países. A Apple diz sustentar dois milhões de empregos nos Estados Unidos.
Quando China e Estados Unidos passam a brandir uma nova forma de nacionalismo econômico, geram um risco de desestabilização do sistema, sem que isso necessariamente leve os dois países a atingir seus objetivos. E as multinacionais e seus parceiros industriais podem em breve enfrentar sérios dilemas financeiros.
Como mostra a operação de Zhengzhou, a China oferece não apenas uma grande força de trabalho como incentivos que seria difícil reproduzir nos Estados Unidos ou qualquer outro país. Os benefícios em Zhengzhou fluem por todo o processo de produção do iPhone, do piso da fábrica às lojas de varejo.
A Foxconn recebe bonificações quando cumpre metas de exportação. Os subsídios, de acordo com registros do governo chinês, totalizaram US$ 56 milhões nos dois primeiros anos de produção, quando a fábrica era dedicada exclusivamente ao iPhone.
O governo de Zhengzhou eliminou os impostos empresariais e os impostos por valor adicionado que a Foxconn teria de pagar nos cinco primeiros anos de produção; sua alíquota será reduzida à metade da regular nos cinco anos seguintes. A Foxconn também paga até US$ 100 milhões anuais a menos em taxas de previdência social e outras contribuições trabalhistas.
A operação alfandegária também fica em uma chamada “zona franca”, que a China essencialmente considera território estrangeiro, sujeito a regras de exportação e importação diferentes. Essa estrutura permite que a Apple venda iPhones com mais facilidade aos consumidores chineses.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
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Levany Júnior

Levany Júnior é Advogado e diretor do Blog do Levany Júnior. Blog aborda notícias principalmente de todo estado do Rio Grande do Norte, grande Natal, Alto do Rodrigues, Pendências, Macau, Assú, Mossoró e todo interior do RN. E-mail: [email protected]

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