FOTOS IMAGENS-SOCIEDADE Para psicanalista, atiradores de Suzano buscavam “ato heroico”


Socióloga francesa e psicanalista brasileira relacionam massacre na escola Raul Brasil à influência sombria da deep web

O massacre da Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, não tem nada de surpreendente para a socióloga francesa Nathalie Paton, autora do livro “School shooting” (“Tiroteio na escola”, em português), publicado em 2015 na França pela editora Maison des Sciences de l’Homme. Paton e a psicanalista brasileira Marlene Iucksch, que trabalha com a Proteção da Infância na França, órgão do Ministério da Saúde, analisaram as circunstâncias do drama para a RFI.Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25 anos, mataram oito pessoas, incluindo o tio de Guilherme, Jorge Antônio Moraes, assassinado pelo sobrinho a caminho da escola. Os dois amigos ainda deixaram 11 feridos. Eles planejaram o ataque durante um ano e meio.

Depois de analisar dezenas de tiroteios em escolas a partir dos anos 1990, principalmente nos Estados Unidos, a socióloga Nathalie Paton diz que esses crimes estão fortemente ligados à produção digital dos próprios assassinos e aos fóruns que frequentam na “deep web”, onde desenvolvem e compartilham uma “violência expressiva”.

No caso de Guilherme e Luiz Henrique, eles seriam frequentadores do Dagolachan, um dos fóruns mais conhecidos de disseminação de ódio e incitação a crimes que opera na internet, de acordo com reportagem do canal de direitos humanos, justiça e segurança pública A Ponte.

Estratégia de comunicação

“A internet está cheia de grupos de pessoas que são fãs de tiroteios em escolas, de massacres de massa e outros tipos de violência. De qualquer maneira, as pessoas buscam quem pensa como elas. No caso dos tiroteios escolares, os autores costumam forjar uma lista de características comuns para ter certeza que o crime será corretamente categorizado na mídia”, diz Paton. Segundo a especialista, existe um roteiro conhecido preparado por esses agressores.

Ser vítima de bullying e ser obcecado por videogame – como era o caso de Guilherme – são sinais de identificação frequentes, destaca a socióloga, e que passam a servir à estratégia de comunicação dos autores. De acordo com Paton, se autoreconhecer enquanto integrantes dessas categorias garante que eles virão a se beneficiar de uma certa “clemência de discurso”. A responsabilidade do crime, nesse caso, se desloca do indivíduo para a sociedade, explica a pesquisadora do Cadis, Centro de Análise e Intervenção Sociológicas (Ehess/CNRS).

“O objetivo desses atos é relativamente narcísico. Os autores querem ter certeza que vão alcançar a glória e morrer como mártires. Eles não querem ceder à vitimização, serem vistos como depressivos, senão perdem o poder. Ao matar, eles se empoderam, reconquistam uma forma de poder que perderam. Imaginam que, assim, recobram a masculinidade e a superioridade”, argumenta Paton. A socióloga francesa não acredita que os fãs de games matem por mimetismo. Na opinião dela, os jogos de computador servem mais para dessensibilizar a pessoa do que para induzi-la ao crime.

“Uma das ideias que desenvolvo em meu livro é que, hoje, existe uma exigência por um individualismo forte. As pessoas devem saber o que são, o que querem, devem ser capazes de realizar seus sonhos. Essas injunções contemporâneas, para que cada um seja diferente de si mesmo, é totalmente paradoxal. A diferença acaba sendo feita pela exclusão do outro e pela violência. No plano sociológico, esta é a contradição: não dá para ser diferente e você mesmo ao mesmo tempo”, resume. Aqueles que carregam feridas internas graves, não resistem.

A psicóloga e psicanalista brasileira Marlene Iucksch, com vários anos de experiência na Proteção da Infância na França, autora do livro “Baleia azul – O trágico convite aos adolescentes”, escrito em coautoria com Jean-Marc Bouville, considera que a sociedade “tira o jovem do convívio com o outro, atualmente”.

No caso de Guilherme, o atirador de 17 anos, seu contexto familiar revela um “desastre absoluto”, avalia a psicanalista. “Faltou na vida desse jovem ter um lugar para ele, ser investido por um pai que desse um certo modelo”, explica Iucksch.

“Tudo indica que esse adolescente se fechou num universo virtual, ele partiu para um outro mundo, mais válido para ele do que o mundo real”, opina. “Os sinais da morte, o sangue, a violência, tudo aquilo que ele encontra naquele outro mundo se tornam uma preparação para a passagem ao ato que ele vai fazer depois. O universo virtual é uma coisa diabólica quando o jovem é mal estruturado”, alerta a especialista.

Iucksch disse à RFI que vai continuar acompanhando o caso. “São matadores a dois, criou-se entre eles um mimetismo e não uma identificação”, diferencia. Ela acredita que eles firmaram, primeiramente, um acordo de suicídio. “Mas antes de se suicidar, prepararam o terreno, criaram uma mortandade, uma sanguinolência, corpos caindo para todos os lados e, no meio disso tudo, se juntaram a eles”, imagina. “No caso de Guilherme e Luiz Henrique, me parece que houve um ato de suicídio pela impossibilidade de encontrar na vida um lugar para eles, mais do que um ato heróico”, reflete.

A fotografia queimada encontrada no quarto de Guilherme, com a imagem do pai e da mãe do adolescente, dizem muito à psicanalista. “Guilherme não encontrou nenhum desejo do pai e da mãe para a existência dele; foi parar na casa do avô e, apesar de a mãe dizer que dava tudo para ele, o que Guilherme não encontrou foi o caminho que era esperado dele”, conclui.

Na França, os tiroteios em escolas são raríssimos. Em junho de 2005, uma estudante foi assassinada em uma escola técnica de Orléans (sul) por um colega apaixonado que não era correspondido. Em março de 2017, um jovem de 16 anos abriu fogo contra colegas em uma escola de Grasse (sul), ferindo 14 alunos sem gravidade.

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